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Pesquisou grupo The Red Pill | O que irmã de Zuckerberg descobriu sobre o mundo do machismo online

Por: , 12 de março de 2019 às 08:12 | Em
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  • Pode parecer irônico, mas a irmã do criador da maior rede social do mundo, que surgiu como um site para avaliar meninas, declarou guerra contra a misoginia na internet. Ou […]

    Pode parecer irônico, mas a irmã do criador da maior rede social do mundo, que surgiu como um site para avaliar meninas, declarou guerra contra a misoginia na internet. Ou ao menos contra parte dela.

    Pesquisadora de estudos clássicos, Donna Zuckerberg, irmã mais nova do fundador do Facebook – é a terceira de quatro filhos -, mergulhou quase que por acaso nesse submundo de memes e trolls imersos em frustração e ódio contra as mulheres (e contra outras minorias) e acabou escrevendo o livro “Not All Dead White Men: Classics and Misogyny in the Digital Age” (Nem Todos os Homens Brancos Mortos: Clássicos e Misoginia na Era Digital”, em tradução livre para o português), lançado nos Estados Unidos no segundo semestre de 2018.

    Tudo começou em 2015, alguns meses depois do lançamento da revista online de estudos clássicos Eidolon, dirigida por Donna. O artigo “Why is Stoicism Having a Cultural Moment?” (Por que o estoicismo está culturalmente em alta?), publicado em agosto daquele ano, começou a receber um tráfego fora do comum.

    Ela descobriu que a maior parte dos acessos vinham de links postados no fórum de discussões Reddit e, fuçando para tentar entender o súbito interesse por essa corrente filosófica fundada há mais de 2.000 anos, Zuckerberg chegou a um tópico de discussão chamado “The Red Pill” – em referência à pílula vermelha oferecida ao personagem Neo (Keanu Reeves) no filme “Matrix”, que lhe revela o mundo real – , onde descobriu a existência de um grupo de homens “unidos pela crença de que o feminismo está causando a decadência da civilização ocidental”, que tinha encontrado na filosofia e na literatura clássica farto material para justificar suas ideias. (Em setembro de 2018, o Reddit colocou a discussão “theredpill” em quarentena, mas o número de assinantes chegava a 230 mil quando Zuckerberg estava escrevendo).

    A pílula vermelha e os fóruns

    Como a autora descobriu e relata no livro, esses homens se dividem em diferentes grupos, que frequentemente entram em conflito: os ativistas dos direitos dos homens, que querem eliminar leis que consideram opressoras, como as que regem divórcios, pensões e a guarda dos filhos; os “pickup artists” (PUA), que acreditam que conquistar mulheres é parte importante do status social dos homens e compartilham técnicas de sedução; “men going their own way” (MGTOW), que consideram as mulheres nocivas e preferem viver apartados delas; a “alt-right“, nome usado para esconder o caráter neonazista de novos grupos de extrema-direita.

    Nos Estados Unidos, esses grupos se organizam em torno de fóruns de discussão e blogs e sites que se travestem de autoajuda para homens, e guardam proximidade com a comunidade gamer (não por acaso, um dos momentos de visibilidade da Red Pill foi o chamado “GamerGate“, espécie de contra-ataque ao crescimento de ideias progressistas no meio gamer). E, embora no Brasil essa comunidade não apresente ainda o mesmo grau de organização, ideias semelhantes também circulam em espaços frequentados especialmente por gamers.

    Um desses espaços era o Fórum UOL Jogos, que entrou recentemente no centro do debate sobre a forma como a direita cresceu e ganhou campo fora do mundo virtual, mas acabou encerrado em dezembro de 2018. Segundo relato do jornalista Daniel Salgado, usuário do fórum nos anos 2000, aquele espaço foi “um dos criadouros de uma cultura masculina adolescente cooptada pela nova direita brasileira”, compartilhada por jovens que “se definiam como excluídos na ‘vida real’ (?). Por isso, acreditavam eles, o mundo virtual deveria se adequar às suas vontades e tolerar seus costumes – dentre eles, a homofobia e o machismo”. As discussões iam de “games ou outros aspectos da cultura geek” até “técnicas para conquistar mulheres inacessíveis”. O término do Fórum UOL Jogos obviamente não significou o fim desse ambiente virtual tóxico na internet brasileira, mas apenas sua migração para outros espaços, como chans (tipo de fórum com conteúdo principalmente de imagens) e novos fóruns.

    “Por trás dessa misoginia jovem, neomisoginia, há toda uma coisa da cultura gamer, de MMA, esses esportes de pancadaria”, acredita Cristiane Costa, professora de jornalismo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisadora de redes sociais. “Eles ficam achando que, protegidos pela rede, são mais ou menos como um jogador, que está ali dando porrada nas pessoas, não vai acontecer nada, não tem ninguém do outro lado”, diz.

    Arte/UOL

    Imagem: Arte/UOL

    Beatriz Accioly, pesquisadora do departamento de antropologia social da USP (Universidade de São Paulo), também vê essa ligação entre a misoginia online e a cultura gamer. “Ao pesquisar violência contra as mulheres na internet e, mais especificamente, nas redes sociais, entrei em contato com a existência de vários grupos de homens denominados masculinistas ou que se autoafirmam “incels” (sigla em inglês de celibatários involuntários) em chans e fóruns de gamers. Especificamente grupos que compartilham conteúdo misógino. A gente sabe, por experiência e conversando com muitas feministas hackers, o papel que esses grupos têm em atacar militantes feministas”, conta.

    E embora não haja indícios de uma comunidade Red Pill brasileira organizada, o termo é frequentemente citado por esses grupos, ao lado também de discussões inspiradas pelos “men going their own way” americanos e pelos “pickup artists”, além de, esporadicamente, ideias extraídas da filosofia estoica (queridinha dos Red Pills, como veremos).

    Ressentidos unidos

    De qualquer forma, os misóginos brasileiros têm em comum com os norte-americanos da comunidade Red Pill a crença de que os homens são os verdadeiros oprimidos no mundo atual. Eles são unidos, escreve Zuckerberg em seu livro, “pelo ressentimento comum contra as mulheres, imigrantes, pessoas não brancas e a elite progressista. O nome, adotado do filme ‘Matrix’, encerra a ideia de que a sociedade é injusta com os homens – em especial os homens brancos heterossexuais – e é estruturada para favorecer as mulheres”.

    De acordo com levantamento feito por Zuckerberg em pesquisas realizadas dentro das próprias comunidades que agregam os homens Red Pill nos EUA, mais de 75% deles são brancos, heterossexuais, politicamente conservadores e têm entre 18 e 25 anos. O que, para ela, torna seu interesse pelo mundo antigo bastante lógico.

    “Quando olham para trás, para os homens brancos mortos do mundo antigo como fontes de sabedoria definitiva, a conclusão é que homens brancos são melhores. Eles nos deram o início da nossa filosofia, cultura e arte. Eles – ou seja, nós, seus descendentes brancos masculinos – merecemos estar no comando”, escreve.

    Tal raciocínio é bastante simplista, porque considera que é possível apagar “as imensas diferenças que existem entre a nossa sociedade e a Antiguidade Clássica para tentar provar o valor incontestável do patriarcado e da supremacia branca – e para argumentar pelo restabelecimento desses sistemas de poder opressivos hoje”, diz a autora.

    É claro que os grupos misóginos não são os primeiros a se apropriar dos clássicos para se posicionar como herdeiros da cultura e da civilização ocidental – o Partido Nazista fez isso na Alemanha dos anos 1940, por exemplo. A diferença é que os homens da Red Pill adaptaram essa estratégia para o mundo digital. “Eles transformaram o mundo antigo em um meme: uma imagem de uma estátua ou monumento antigo se transforma em um atalho inesgotavelmente replicável e maleável para projetar sua ideologia e colocá-la em circulação”, afirma a pesquisadora.

    Estoicos ou paranoicos?

    Os homens da Red Pill se apropriam da Antiguidade Clássica (e também de outros períodos históricos) de inúmeras formas, mas Zuckerberg identificou algumas tendências predominantes, que giram em torno de três temas: a filosofia estoica, os conselhos de sedução do poeta romano Ovídio em “A Arte de Amar” (escrito entre 1 a.C. e 2 d.C.) e modelos antigos de casamento patriarcal.

    O estoicismo é uma escola filosófica fundada em Atenas por volta de 300 a.C. que, de forma geral, ensina que quase tudo que é percebido como nocivo só é nocivo porque a pessoa permite que seja, e que o único mal verdadeiro seria o vício. Não parece exatamente ruim, mas os homens da Red Pill “usam uma versão simplificada da filosofia”, a partir de textos de blogueiros que destilam conceitos ou oferecem citações fora de contexto para “celebrar o que veem como traços masculinos típicos, incluindo a suposta capacidade superior masculina de usar a razão para controlar as emoções”, escreve Zuckerberg, apontando que, na verdade, o estoicismo não fazia diferenciação entre as capacidades de homens e mulheres.

    Para alguém que tenha intimidade com essa escola de pensamento, a autora acredita que fica claro que esses homens não usam os ensinamentos estoicos para se tornarem mais virtuosos, mas para “projetar a aparência de controle emocional, citando autores estoicos para transformar sua imagem de um grupo de homens brancos raivosos em uma imagem de pessoas corajosas o bastante para se posicionar”.

    Gurus da sedução

    Já Ovídio, poeta romano que nasceu em 43 a.C., é visto como uma espécie de predecessor intelectual dos “pickup artists” (PUA), que levam muito a sério seu “A Arte de Amar”, um manual de sedução em três volumes – o primeiro ensina homens a seduzirem uma mulher, o segundo foca em como manter o interesse dela e o terceiro ensina mulheres a seduzirem homens – que estudiosos veem como uma espécie de brincadeira literária.

    “É um tipo de estratégia de legitimação intelectual. Faz com que o negócio de dar conselhos de sedução pareça algo muito erudito, se é possível retraçá-lo a um dos maiores poetas da Roma Antiga”, explicou Zuckerberg no programa de rádio australiano “Late Night Live”. Não que os Red Pills levem as recomendações de Ovídio ao pé da letra, mas tiram os escritos de seu contexto e usam a obra para validar muitas de suas ideias, como a de que manipular e violar mulheres é uma parte da técnica de sedução.

    “Ela deseja o que não te pede, isto é, que insistas. Continua, pois, em breve obterás tua recompensa”, escreve Ovídio. “Nada te impede de te sentares bem perto daquela que te agrada [nas arenas onde aconteciam corridas]; aproxima o mais possível o teu corpo ao dela; felizmente o tamanho dos assentos obriga as pessoas, quer gostem quer não, a se apertarem umas contra as outras, de modo que é obrigada a deixar-se tocar”, prossegue ele. 

    Na verdade, o que o poeta está sugerindo é que os limites colocados pelas mulheres estão ali para serem gradualmente violados, ideia não muito diferentes da de um dos gurus da comunidade PUA, James “Roissy” Weidmann, criador do blog Chateau Heartiste: “Tocar uma mulher de forma inapropriada no primeiro encontro vai te levar mais longe com ela do que simplesmente não tocá-la. Não deixe a falsa indignação de uma mulher com seu atrevimento te fazer vacilar; elas secretamente amam quando um homem vai agressivamente atrás do que quer e deixa claras suas intenções sexuais”.

    Para Zuckerberg, por trás dos conselhos de Ovídio e de gurus dos PUA está a perigosa tentativa de relativizar o consentimento, colocando o desejo masculino à frente dos limites femininos e reforçando a crença de que as mulheres querem dizer “sim” ao sexo quando dizem “não”.

    Casamento à moda antiga

    Esses também são homens que deixariam a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) orgulhosa, advogando por relações de gênero semelhantes às do mundo antigo. “Homens de todas as facções da Red Pill vêm se tornando cada vez mais vocais nos últimos anos sobre seu desejo de trazer de volta políticas de gênero não apenas fora de moda, mas literalmente antiquadas – para reinstaurar as condições sociais de homens e mulheres no mundo antigo”, escreve Zuckerberg. 

    Em alguns dos exemplos mais perturbadores, vozes como a do blogueiro Valizadeh advogam que as mulheres deveriam ter todo seu comportamento e decisões “que afetem seu bem-estar” controladas por homens, inclusive no que diz respeito a suas atividades sexuais, por meio de um guardião ou de normas culturais rígidas e legislação específica para o sexo feminino, “para proteger as mulheres de seu obviamente deficiente poder de decisão”. 

    Arte/UOL

    Imagem: Arte/UOL

    “Ela precisa pedir aprovação de seu guardião em questões de dieta, educação, namorados, viagens, amigos, entretenimento, regime de atividades físicas, casamento e aparência, incluindo escolha de roupas. Uma mulher precisa receber sinal verde de seu guardião antes de fazer sexo com qualquer homem, antes de vestir determinada roupa, e antes de ir para uma ilha espanhola com as amigas no verão”, escreve ele, que, em outro texto, também defende a cassação do direito feminino ao voto.

    Para Zuckerberg, falas como essas ligam a liberdade feminina ao declínio da civilização ocidental e argumentam que o tipo de controle paternalista da era clássica é necessário para criar uma sociedade que seja boa para homens e mulheres, porque mulheres não seriam capazes de tomar boas decisões (partindo de ideias derivadas do estoicismo de que homens são mais racionais).

    “Eles se apropriaram dos textos e história da Grécia e da Roma antigas para basear suas ideias mais repugnantes: que todas as mulheres são traiçoeiras e degeneradas; que homens brancos são por natureza mais racionais (e, portanto, superiores) que todo o resto; que os limites sexuais femininos existem para serem manipulados e rompidos; e, finalmente, que a sociedade como um todo se beneficiaria se os homens fossem responsáveis por tomar decisões pelas mulheres, em especial sobre suas escolhas sexuais e reprodutivas”, conclui a autora.

    Misoginia à moda brasileira

    Ainda que a comunidade misógina online no Brasil não apresente o mesmo grau de organização que os Red Pills, isso não significa que por aqui não haja uma ideologia desse tipo, muitas vezes importando ideias dos grupos norte-americanos.

    “Eles copiam tudo que vem dos Estados Unidos, tudo. Copiam os nomes, começam a adotar os mesmos termos, o Red Pill, por exemplo”, diz a blogueira feminista e professora da UFC (Universidade Federal do Ceará) Dolores Aronovich, mais conhecida como Lola, que entrou em contato com esse mundo quando começou a sofrer ataques de grupos antifeministas que se denominavam de “masculinistas”. 

    “A impressão que eu tenho é que eles superficialmente copiam o repertório de alguns sites em inglês”, concorda Beatriz Accioly, que pesquisa violência contra as mulheres na internet.

    Mas isso não significa que não há nenhuma ideologia por trás dos discursos desses homens que espalham misoginia na internet, e que ela não se aproxima das ideias da comunidade Red Pill.

    “A crítica às mulheres que se colocam no debate público como feministas passa muito por isso de ‘elas querem privilégios’, ‘elas querem direitos a mais'”, diz Natália Neris, coordenadora da área Desigualdades e Identidades do InternetLab, organização que pesquisa direito e tecnologia.

    Accioly concorda: “A ideia de que o feminismo é ruim e de que eles estão perdendo algo, mesmo que não consigam nomear exatamente o que estão perdendo, é bastante recorrente nos ataques de caráter misógino que acontecem na internet e fora da internet”. Mas, segundo ela, a questão não se restringe às mulheres. “Eles costumam dizer que qualquer tipo de disputa por direitos identitários seria um vitimismo, e que por causa disso estariam sendo oprimidos, porque não são os homens brancos e heterossexuais que estão sendo colocados na discussão política acerca do aumento de acesso a direitos. Como se o avanço dos direitos dos outros fosse uma perda dos direitos deles, e não uma perda de privilégios, de vantagens injustas”.

    Neris aponta outra característica dos discursos misóginos na internet brasileira, em especial em um contexto político como as eleições, o que foi monitorado em 2016 pelo InternetLab: uma desqualificação pela beleza (ou suposta falta dela). “A gente percebeu uma tendência muito forte de desqualificação das mulheres pela estética. Isso apareceu muito também no último período eleitoral – ‘feministas são feias’, e aí fotos de mulheres em manifestações, dizendo ‘tudo faz sentido, quem ficaria com essa mulher?’. É quase infantilizante”.

    Accioly liga esse tipo de ataque a “elemento de frustração sexual forte”. “Isso aparece muito nos fóruns de gamers. Chamar as mulheres de feias, gordas, apontar tudo aquilo que estaria fora de um padrão ideal de mulher”.

    “Está claro que para toda a sociedade o lugar da mulher não é um lugar de poder, de comunicação, que possa ser vocal. Mas essa desqualificação passa por essa justificativa que é ainda bastante rasa”, conclui Neris.

    Backlash

    Para as pesquisadoras do tema, tanto aqui como nos EUA, a crescente visibilidade das demandas feministas também tem ocasionado ataques contra figuras mais visíveis do movimento, como a própria Lola Aronovich, que foi perseguida e recebeu ameaças de mortes de grupos misóginos. Seu caso inspirou a criação da chamada Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de ódio contra mulheres pela internet, em vigor desde abril de 2018.

    “São grupos que colocam como alvo militantes mulheres, em geral feministas, mas pode não ser, e também algumas mulheres que fizeram relatos públicos de violência sexual”, relata Accioly. “São ataques organizados em que se descobre dados pessoais, endereço, envia-se correspondências ofensivas e por vezes violentas, animais mortos, cria-se boicotes a falas públicas dessas pessoas que tenham algum tipo de divulgação na internet, cria-se rumores sobre essas mulheres ativistas”, explica a pesquisadora, reforçando que esse tipo de ataque parte muito de grupos de chans e fóruns de gamers.

    Cristiane Costa, que conversou com diversas ativistas feministas para escrever o capítulo sobre redes sociais do livro “Explosão Feminista”, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, confirma que todas elas são continuamente alvos desses ataques. A professora da UFRJ vê com bastante receio o crescimento recente desses discursos de ódio. “Eles têm mecanismos muito poderosos, mecanismos de marketing mesmo. Existe alguma coisa dos algoritmos que parece que, cada vez que você grita, eles sobem no seu ombro para gritar mais alto. São pessoas que não tinham a menor importância no passado, tanto politicamente quanto intelectualmente, e estão ganhando destaque”, acredita.

    A própria Donna Zuckerberg foi alvo de ataques misóginos, mesmo antes do lançamento de seu livro, quando publicou um artigo, logo após a eleição de Donald Trump, encorajando classicistas a examinarem o uso que a extrema-direita estava fazendo dos clássicos.

    “Previsivelmente, eu me tornei o alvo de uma tempestade de trollagens”, escreve ela. “E nos dias e semanas seguintes, recebi centenas de tuítes e e-mails antissemitas, muitos acompanhados de montagens do meu rosto (e do rosto de meus familiares) em uma câmara de gás ou em um campo de concentração. Outros me ameaçavam de estupro ou detalhavam qual arma gostariam de usar para atirar em mim. Daryush Valizadeh se vangloriou para seus seguidores que sabia onde eu e minha família vivíamos, mas argumentou que não era necessária nenhuma violência física porque ele já havia estuprado a minha mente. Ainda recebo mensagens com insultos antissemitas todas as semanas”, conta.

    Para Beatriz Accioly, esses ataques têm como objetivo retirar as mulheres do campo das discussões públicas. “São ataques coordenados com o intuito de tornar aquele espaço hostil para grupos que estão reivindicando direito e voz, para as mulheres. Quando você cria um cenário como o que aconteceu com a Lola Aronovich, você está dizendo para as mulheres: ‘recuem'”.

    Diante de sua própria experiência, Zuckerberg não hesita em falar sobre a influência negativa que as redes sociais têm no mundo atual, apesar de suas relações familiares. “As redes sociais levaram a uma democratização sem precedentes da informação, mas também criaram a oportunidade para que homens com ideias antifeministas transmitissem seus pontos de vista para mais pessoas do que nunca – e espalhassem teorias da conspiração, mentiras e desinformação. As redes sociais elevaram a misoginia a níveis inteiramente inéditos de violência e virulência”, admite no livro.

    Ela também reconhece a responsabilidade do Facebook nesse cenário, mas diz acreditar que a empresa de seu irmão está se empenhando em lidar com o problema mais do que as outras redes sociais. “O Facebook é obviamente parte disso”, disse, em entrevista ao site Quartz. “Acho que está bem claro que o Facebook está ciente do problema das bolhas progressistas e conservadoras. De maneira geral, não vejo o Facebook como algo tão crucial para os membros da Red Pill, embora obviamente haja grupos e comunidades no Facebook que são parte da Red Pill”, completa ela, antes de cortar o assunto. “Desculpe, esse é um terreno muito complicado para mim”. 

    Ainda assim, falando de forma mais ampla, ela não tem muita esperança de que seja possível eliminar o discurso de ódio virtual. “Mesmo se encontrarmos estratégias saudáveis que contribuam bastante para eliminar o discurso de ódio online, determinadas pessoas sempre vão encontrar uma maneira”, conclui Zuckerberg.

    Trump e Bolsonaro

    Sua posição costumava ser um pouco mais otimista, ao menos em relação ao uso da cultura clássica pela extrema-direita, antes da eleição de Donald Trump, que, segundo ela, “empoderou essas comunidades online a serem ainda mais vocais com sua ideologia”. A situação norte-americana, nesse sentido, tem paralelos com a última eleição presidencial brasileira, na qual inúmeros candidatos construíram suas plataformas sobre falas cheias de preconceitos contra minorias, inclusive o próprio presidente Jair Bolsonaro.

    “Nesse período, a gente observou uma quantidade enorme de casos de violência virtual e física contra LGBTs, negros, e em muitos deles as vítimas relatavam ter ouvido frases do tipo ‘quando o Bolsonaro vencer, vamos matar os viados'”, diz Natália Neris. Segundo a ONG SaferNet, que atua na promoção e defesa dos direitos humanos na internet, no dia seguinte ao primeiro turno houve 5.163 denúncias de discurso de ódio nas redes sociais, 46 vezes mais que no dia anterior.

    “Essa é a maior legitimidade que eles conseguem, ter um governo cheio de fundamentalistas no poder, que muitas vezes vão usar o discurso deles, como aconteceu nos Estados Unidos”, acredita Lola Aronovich, ponderando que, ainda assim, os masculinistas “não consideram Bolsonaro tão extremista quanto eles gostariam que fosse”.

    Beatriz Accioly também vê uma relação entre o pensamento e a atuação dos grupos misóginos na internet brasileira e os temas que pautaram as últimas eleições. “Esses grupos que fazem ataques a militantes feministas usam muito a ideia da ‘ideologia de gênero’, que seria a ideia de que a militância pelos direitos das mulheres e do movimento LGBT atacaria ou influenciaria a construção das identidades das pessoas, ensinaria as pessoas a serem homossexuais ou transexuais. E isso teve um papel enorme nas eleições. Tanto que, no primeiro discurso, o presidente falou especificamente de ideologia de gênero”, lembra a pesquisadora da USP. 

    “Essa quantidade enorme de memes, de imagens de material didático com frases de efeito, e a própria fala da ministra Damares, ‘meninos vestem azul e meninas vestem rosa’ – uma metáfora que diz de papéis sociais bastante rígidos e fixos – mostram que esse ressentimento em relação às pautas identitárias, que está nos grupos misóginos e conservadores, que está por trás da discussão da ‘ideologia de gênero’, foi extremamente importante para eleger a plataforma do governo atual e para sustentar certas políticas que já começaram a ser implantadas e devem continuar”, conclui.