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Torres Freire | Greve, o miolão do Congresso e tsunami

Por: , 12 de maio de 2019 às 22:09 | Em
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    Os professores fazem greve nacional contra a reforma da Previdência na quarta-feira, dia 15, com manifestações no centro das principais cidades do país. O protesto terá pelo menos o apoio de estudantes, incitados pelas declarações ferozes do ministro da Educação.

    Também pelo meio da semana, o governo deve tomar uma traulitada do parlamentarismo de improviso da Câmara, cortesia das lideranças do miolão. Trata-se do ajuntamento de dois terços dos deputados, uns 340 personagens à procura de um autor, bloco majoritário e maior que o velho centrão, nem governista nem oposicionista.

    Mais ou menos sob a liderança de Rodrigo Maia (DEM), presidente da Casa, o miolão pretende ser um governo-sombra ou paralelo, que imponha limites a Jair Bolsonaro e invente uma pauta própria de projetos para si e até para o país.

    Protestos e traulitadas talvez sejam o “tsunami” de que o presidente da República falava na sexta-feira (10). Pelo menos era o que causava nervosismo no Gabinete de Segurança Institucional.

    Em abril de 2017, houve uma greve que praticamente enterrou a já então estertorante reforma da Previdência de Michel Temer. O Joesley Day de maio foi pá de cal na morta.

    Era uma “greve geral”, no entanto. Além do mais, teve repercussão e adesão mais amplas do que o universo das centrais sindicais que convocaram o protesto e dos paredistas mais costumeiros (pessoal de transporte, servidores, bancários, petroleiros). Por exemplo, professores de escolas privadas aderiram; milhares de paróquias católicas faziam campanha contra a reforma. Para facilitar, o presidente era unanimidade nacional. Além da margem de erro, ninguém apoiava Temer.

    Por enquanto, um terço dos eleitores acredita que Bolsonaro é bom ou ótimo. Por mais azedo que esteja o Congresso, não há projeto parlamentar organizado de enterrar a reforma previdenciária, ao contrário, apesar da baderna palerma do Planalto. A ideia é mais colocar uma corda no pescoço do governo do que decapitá-lo, ao menos por enquanto.

    É possível que as lideranças do miolão arranquem mais um tanto do couro de Sergio Moro, votem uma lei de abuso de autoridade, aumentem o valor das emendas parlamentares ao Orçamento, limitem o poder presidencial de baixar medidas provisórias e aprovem outras “pautas próprias”, como é o plano registrado desde março nestas colunas. Mas não querem afogar o governo no tsunami.

    Óbvio, o miolão é um partido da ordem, situacionista quando se trata dos poderes do país, um ônibus em que, de um lado do corredor, viajam os interesses das castas burocráticas, e, de outro, o das elites econômicas privadas. No miolão cabe quase tudo, menos o PT e o PSL.

    Sim, Bolsonaro deve apanhar bem nesta próxima semana. Há riscos, tanto que suas milícias virtuais também estão preocupadas e começam a difundir uma campanha contra o miolão do Congresso e o STF, além dos militares. Não há, porém, um movimento de cerco, que juntaria ruas e parlamentares.

    Nem ainda há rua, nem os parlamentares estão nessa onda. A elite, o dinheiro grosso em particular, está um tanto desesperada em fazer com que “algo dê certo” (reforma da Previdência, trabalhista 2.0), que se evite uma recessão, que Bolsonaro valha parte do que custa.

    Decerto, haverá pelo menos mais seis meses sem nenhum alívio econômico, clima seco propício para revoltas. O protesto do dia 15 talvez sirva para dar algum rumo à oposição, quando ela voltar de viagem.