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Eu não quis ofender… | Desculpa pública não resolve racismo, e culpa sempre fica com quem leu

Por: , 13 de maio de 2019 às 00:01 | Em
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    “A gente tem que trabalhar da forma como a comunicação acontece hoje, mas isso é ruim”, diz Augusto Botelho, advogado criminalista e sócio de um dos escritórios mais disputados do país. Em sua prática profissional, Botelho trabalha para que seus clientes se posicionem sem perder o tempo ótimo da resposta. Isso significa, muitas vezes, emitir uma comunicação antes mesmo de saber detalhes do que de fato aconteceu. “O imediatismo da informação faz com que essa nota tenha que ser divulgada, muitas vezes, quando você não tem um conhecimento mínimo do que está acontecendo. Tem um timing complicadíssimo. E, se você perde, aí não adianta mais”.

    Essa resposta rápida e rasteira (falando sempre em “profundidade”) não tem outra função a não ser cumprir uma espécie de etiqueta do julgamento público. “Eu sinto uma pressão tão grande que parece que, se você não responde, por mais que seja com uma nota padrão, está assumindo algum tipo de culpa”, afirma Botelho.

    Esta é uma das muitas dinâmicas desse complexo mosaico. Há uma cobrança midiática – incluindo aí as sociais – de postura de corporações e pessoas públicas, ao ponto de que a falha em atender essa demanda pode dar a aparência de culpabilidade (o que, como veremos mais para frente, é um problema jurídico real). Seria irresponsável para um advogado, portanto, permitir que seu cliente tenha uma dívida de reputação.

    Especialmente porque a culpa, às vezes, nem existe.

    Nem todo mundo sabe, por exemplo, que uma empresa não pode ser criminalmente responsabilizada por nada no Brasil, com exceção de crime ambiental. Por mais que as marcas se humanizem com storytellings, gracinhas em redes sociais, algoritmo para atender os consumidores de maneira cada vez mais individualizadas, no fim, ainda lidamos com um fato que muita gente trabalha para ninguém lembrar: a pessoa jurídica é uma abstração. Se seu amigo não tem CPF, é imaginário.