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07/06/2016 - Por: Abraão Chavier

 

A importante redução de pilotos brasileiros no exterior nas categorias de formação e as dificuldades bem maiores de sucesso, hoje, em comparação ao passado, são inquestionáveis, conforme abordado no primeiro capítulo da série sobre as razões de o país não renovar mais seus campeões como fazia nos anos 70 e 80.

Mas há outro fator, de grande importância também: a inoperância da autoridade esportiva, a triste Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), tema deste segundo e último capítulo da série. Na realidade, a ineficiência não envolve apenas a entidade, mas o automobilismo como um todo, como é estruturado, como é definido o poder nesse esporte, clubes, federações, que interesses há nele, quem elege o presidente da CBA e que princípios obedecem.

No dia seguinte ao da votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, 18 de abril, milhões de brasileiros comentaram, estarrecidos, as imagens da TV registradas enquanto cada deputado fazia o seu discurso, explicavam (?) o motivo de seu voto.

A desqualificação da classe política exposta foi assustadora. E preocupante. As razões alegadas denotaram um abismo entre as profundas necessidades do Brasil e a falta de consciência dos “representantes do povo”. Ainda mais grave: eleitos pelo voto direto. É nas mãos daqueles cidadãos despreparados, ao menos a maioria, que estão 200 milhões de brasileiros. Fica fácil entender a condição do país.

TAL QUAL A CLASSE POLÍTICA

Numa escala de importância infinitamente menor, por estarmos falando apenas de automobilismo, algo que não atinge a nação como saúde e educação, responsabilidade dos políticos, a realidade das autoridades esportivas não é diferente da que emergiu da Câmara dos Deputados dia 18 de abril. É preciso vasculhar com cuidado para encontrar cidadãos com consciência da verdadeira razão de lá estar, quais são as suas atribuições e o que pode ser feito para executá-las. Mais: não esmoreçam ao primeiro sinal de dificuldade, sempre presentes.

É possível exemplificar a ausência da CBA no automobilismo, por mais paradoxal que possa parecer, com algumas perguntas. O Brasil tem uma das maiores indústrias automotivas do mundo, cerca de 3 milhões de veículos são produzidos por ano, apesar da crise. Com todos os pesares, tem uma companhia de petróleo, Petrobras, que fora o que experimenta, sua pujança é reconhecida internacionalmente. Há várias multinacionais de petróleo no Brasil disputando um dos mais competitivos e grandes mercados do planeta.

Com todo esse potencial a ser explorado, com o histórico de sucesso do Brasil no automobilismo, com a ainda existente identificação do brasileiro com esse esporte, quantos projetos criados por profissionais foram encaminhados às empresas do setor, nas últimas décadas, pelas várias gestões da CBA?

INANIÇÃO TOTAL

Importante: por projeto entendam-se projetos realistas, concebidos por empresas especializadas em atender o que se deseja e, essencialmente, como o automobilismo, os investidores e os fãs poderiam capitalizar. Nesse nível de seriedade, nenhum. Frase do ex-ministro do esporte, Aldo Rebelo: “Verba para o automobilismo nós temos, nós não temos projeto, nunca fomos procurados”.

Que projetos seriam esses? Por exemplo repensar o que se faz no kart no Brasil. Reunir os profissionais da área e daí sair um projeto que torne a importante competição mais acessível, disputada, abrangente, ainda mais válida como primeiro estágio na formação de pilotos, mecânicos, chefes de equipe.

A CBA tomaria a liderança o projeto e se reuniria com promotores e empresários a fim de tentar viabilizá-lo. Procuraria envolver o Ministério do Esporte. Automobilismo é esporte. A CBA deveria mostrar ao ministro a importância da isenção ou redução de impostos na importação de certos equipamentos. Ele poderia pressionar a área econômica. É de interesse do Brasil. Tudo isso ajudaria a CBA a ganhar maior respeito da classe empresarial.

CONCILIAR INTERESSES

É simples? Não. Mas é preciso tentar, ouvir os potenciais investidores, entender o que eles gostariam, procurar conciliar os interesses de todos. Para isso é preciso, fundamentalmente, iniciativa, consciência da importância de o projeto dar certo, espírito de luta, paixão. Em resumo, tudo que a CBA não tem.

Outro projeto seria a criação de uma categoria escola de monopostos, destinada a receber os jovens egressos do kart. Mas no mesmo nível técnico do que se faz em campeonatos de formação na Europa, os melhores, como na Fórmula 4 italiana, por exemplo, para que o piloto brasileiro não leve, depois, um choque ao ver a diferença entre o que conhecia de automobilismo no Brasil e o praticado na Europa, para onde irá visando chegar a F1.

Na F4 italiana corre o filho de Michael Schumacher, Mick, segundo colocado, hoje, depois de 11 corridas, e dois brasileiros, João Vieira, sétimo, e Giuliano Raucci, 14º. O líder é o argentino Marcos Siebert.

Por que não enviar um grupo de integrantes da CBA com conhecimento de causa para o exterior, acompanhar de perto as competições, depois de prévio agendamento com os seus responsáveis, ver melhor o que existe, como o automobilismo é praticado hoje lá e, depois, junto dos promotores estabelecidos no Brasil, ou novos, realizar um planejamento para estudar como poderia ser aplicado no país?

PAULÃO, GRANDE PILOTO. JÁ DIRIGENTE…

O diretor de planejamento e marketing da CBA é o notável Paulo Gomes, o Paulão, um gigante das pistas, multicampeão. Pela sua história e importância para o automobilismo, merece o mais profundo respeito e admiração.

Mas o que Paulão fez até agora como dirigente do esporte que ajudou a tornar grande no país? Que projetos ele e ao atual presidente da CBA, o pernambucano Cleyton Pinteiro, tentaram costurar com eventuais investidores em sete anos de mandato, quase duas legislaturas? Quais foram as ações de Paulão na CBA? Sem que isso fira seu passado de glória, felizmente herdado pelo filho Marcos, atual campeão da Stock Car.

O que Pinteiro fez, por exemplo, para tentar revitalizar os autódromos existentes e cobrar, como se deve, a construção do “prometido” para o Rio de Janeiro?

ASSUMIR AS RÉDEAS

Cabe a CBA catalisar as negociações entre promotores privados e as empresas potencialmente investidoras, dar chancela, lastro, representatividade aos projetos. E, em alguns casos, ela mesmo assumir as rédeas de ter uma categoria de monopostos escola, por exemplo, se não houver quem a organize. Por que não? É assim que se faz no universo do automobilismo desenvolvido.

Problemas todos enfrentam para viabilizar seus projetos. O desafio de conciliar interesses é grande, mas quando se tem vontade, iniciativa, a força do poder nas mãos, na maioria das vezes soluções de compromisso são encontradas e as coisas de uma forma ou de outra começam a funcionar. Em outras ocasiões descobre-se que os interesses são comuns e o projeto decola sem maiores dificuldades.

A única categoria de monopostos no país, atualmente, é a mantida pelos abnegados da F3 Brasil. São poucos carros, seu nível está bem aquém do Europeu da categoria e por conta da ausência de uma competição intermediária, entre o kart e a F3, muitos meninos fazem essa transição direto. É um erro grave que se comete no Brasil. O passo a passo na formação de um piloto tem grande importância na possibilidade de sucesso na carreira. Trata-se de um aprendizado crescente que deve ser respeitado.

PASSO MAIOR DO QUE A PERNA

Casos com o de Max Verstappen, do kart para a F3 de um ano para o outro e da F3 para a F1, na temporada seguinte, representam a exceção da exceção. A chance de dar errado é infinitamente maior que de dar certo. Esses saltos maiores do que a perna são, por vezes, fatais para a trajetória dos pilotos. Dar o passo para trás é mais difícil do que o de ascender à competição seguinte.

Se nos monopostos quase não há nada no Brasil, na categoria Turismo o cenário é bem mais favorável. O campeonato da Stock Car segue o seu curso bem-sucedido, onde a CBA faz apenas o seu papel de cartório, ao enviar um diretor de prova e os comissários desportivos, bancados, claro, pelos promotores da Stock Car, a Vicar. A empresa mantém no mesmo evento o Campeonato Brasileiro de Turismo, o Campeonato Brasileiro de Marcas, o Mercedes Challenge.

Há ainda, no país, a também bem-sucedida Porsche GT3 Cup Challenge Brasil, monomarca para os modelos 911 GT3 Cup e que tem como pilotos os chamados gentleman drivers, pilotos já de alguma experiência, de modo geral, e que desejam se manter na ativa, competindo com carros de alto nível.

Se o objetivo do piloto brasileiro é correr lá fora em categorias de turismo ou endurance, ele dispõe dessas opções para começar a se formar no Brasil. Apesar das suas dificuldades, são opções válidas, pelo nível elevado da maioria de seus pilotos, bom estágio das equipes e profissionalismo de sua promoção e organização. Também nesse perfil se enquadra a Fórmula Truck, competição de caminhões, com seu enorme e fiel público.

CBA COBRA CARO

Todas essas categorias pagam taxas elevadas para a CBA para serem homologadas. E, como descrito, suas competições devem sempre contar com representantes da entidade, bancados por seus promotores. Agora procure a CBA para obter dados de pesquisa para um estudo, publicação. Sabe o que encontrará? Nada. Não há arquivo histórico. E os documentos das provas são assinados por seus representantes.

De novo caímos naquele problema mencionado há pouco, falta de consciência da importância dessas iniciativas e desinteresse. E trata-se de um investimento dos menores, diga-se, mas que não vale a pena para a mentalidade dos dirigentes da CBA.

O discurso da maior parte de suas lideranças é raso, inócuo, desprovido de propostas, distante da verdade, valoriza o que não tem importância e deixa de lado o que de fato interessa para a saúde do automobilismo e garanta um futuro melhor.

O automobilismo precisa de um choque, como o que começou a ser feito com a classe política brasileira, um questionamento profundo da maior parte dos seus caciques, na CBA e nas federações. O modelo que está aí não funciona há décadas. Quando ainda apenas na base do talento era possível aos pilotos brasileiros viajar ao exterior e, dependendo das condições, mais fáceis que hoje, fazer sucesso, essas deficiências da CBA, já existentes, apareciam menos.

ADMINISTRAÇÃO INCONSEQUENTE

É mais fácil para a classe de dirigentes da CBA atribuir as dificuldades de o Brasil renovar seus campeões no exterior à conjuntura mundial. A transformação do automobilismo no mundo é algo real, conforme detalhado, e reduziu a possibilidade de sucesso de todos. Mas a inconsequência da autoridade esportiva brasileira para encarar a nova realidade e tentar reverter esse quadro nefasto representa algo ainda mais palpável.

Quem deseja enxergar ao menos a perspectiva de ver o Brasil ter presença marcante nas pistas de novo e se orgulhar do que nossos representantes fazem na F1, ou em outras competições, deve torcer para que alguma coisa também aconteça na entidade que representa o automobilismo no Brasil e uma nova realidade se estabeleça.

Primeiro, que seus dirigentes não tenham os vícios maléficos que há muito se tornaram endêmicos na CBA, que suas lideranças tenham comprovada capacidade e espírito idealista, comprometidos com a causa, conscientes do atraso e do imenso desafio que têm pela frente. Que haja transparência no uso da arrecadação. Ou seja, que os novos dirigentes tenham postura oposta a maioria que hoje existe lá.

REFORMA DOS ESTATUTOS, FUNDAMENTAL

Muito importante: essa nova classe de diretores deve liderar uma ampla reforma estatutária, para rever tudo na forma como o poder é organizado. O papel dos clubes, das federações e da própria CBA deve ser redimensionado.

O Ministério do Esportes e o Ministério Público bem que poderiam se interessar pelo caso. É de interesse do país. O momento é mais que oportuno. A hora é de buscar justiça, eficiência administrativa, lisura, conforme o Brasil assiste, surpreso até, no âmbito político.

Que o novo estatuto permita que o presidente da CBA seja eleito por um colégio eleitoral representativo do automobilismo, que o voto de federações sem expressão no esporte, sem autódromo ou atividade, com todo o respeito, não tenha o mesmo peso de outras que concentram a maior parte dos profissionais do setor. Que o modelo reduza a possibilidade de negociação do voto.

Que o colégio eleitoral tenha consciência do que deseja, e não seja mais como hoje, onde os seus interesses pessoais, pequenos, distantes dos necessários, se sobrepõem em todas as instâncias ao do esporte que até há duas décadas mais bem representou o Brasil no mundo, o automobilismo.

A mudança do estado de coisas mencionado ainda no primeiro parágrafo do primeiro capítulo da série, potencialmente capaz de lavar a nação a não ter representantes na F1, já no ano que vem, passa, obrigatoriamente, por uma transformação radical do que faz, ou melhor, não faz a CBA.

Em março do ano que vem haverá eleição para a presidência da entidade. O presente e o futuro do automobilismo vão estar nas mãos de 20 cidadãos com direito a voto, designados pelas federações de cada estado. Bem, essa é outra história, bem complexa, cheia de conchavos horrendos e onde essa desgraça para os interesses do esporte começa. Fica para outro dia.

*O artigo em questão não traduz, necessariamente, a opinião do GloboEsporte.com; é de responsabilidade de seu autor

Fonte:
http://globoesporte.globo.com/
Imagens:
Giuliano Raucci, piloto da Fórmula 4  (Foto: Divulgação/RF1)

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